A história política do Bolsonarismo, enquanto fenômeno sociopolítico na contemporaneidade brasileira, impressiona pela sua grandiosidade numérica e construção espontânea ao menos inicialmente por parte da sociedade civil. Vislumbramos a corrosão desse fenômeno, na medida em que o cerco jurídico-político se fecha em torno da figura protagonista do mesmo como salientei um pouco no meu último artigo, no entanto, acredito ser interessante fazer novamente um traçado histórico estabelecendo um paralelismo entre a ascensão desse "movimento" e o adensamento da canastrice moral e psíquica dos apoiadores fiéis da "nobre causa".
A figura de Bolsonaro ganha destaque a partir da participação do mesmo em programas de TV aberta de baixa audiência, os quais topavam qualquer coisa para angariar público e visibilidade, nesse sentido convidar um político sem feitos concretos nulos na sua atuação política, sem densidade intelectual alguma e com uma virulência estúpida nas palavras parecia ser uma boa ideia, como foi basta ver o faturamento da emissora catapultadora em questão durante o governo do mesmo. Nesse ínterim, entretanto, a popularidade de Bolsonaro se dava pela repercussão de suas falar em nichos restritos da internet, essa que naquela época começava a se alterar. Pois bem, havia um grupo que o entendia como figura adequada para assumir destaque no debate político nacional, mesmo com os predicados que eu destaquei a pouco. Resumia-se, portanto, a uma grande piada.
Tudo começa a mudar, na medida em que, com essa pequena retaguarda visionária que o impulsionava a cavar espaço na mídia convencional e nas redes sociais, somado a tentativa do mesmo em se ancorar nas movimentações pelo impeachment de Dilma Rousseff o mesmo vai ganhando espaço, nesse momento ainda com desconfiança e descrédito mas o importante naquela ocasião, era ser falado. Tal estratégia, mostrou-se muita inteligente, visto que com o sucesso das movimentações pelo impeachment de Dilma Rousseff e a ausência de uma liderança política, oriunda daquela movimentação, Bolsonaro, que não teve trabalho concreto algum para viabilizar a deposição da então presidente, se cacifou como liderança quase inconteste. As pessoas, então, ouvindo seu discurso que foi modulado para atender as expectativas das mesmas expostas nas ruas entre 2013 e 2016, agora o tinham como o arauto da transformação sebastianista rastaquera como expus no último artigo. Assim como de baixo para cima as pessoas se revoltaram com estado deletério de coisas em que o país estava acometido, agora também espontaneamente faziam ode a Jair Messias Bolsonaro.
Sob um prisma teológico, vislumbramos, então, a perspectiva de criação, queda e redenção no caso brasileiro a criação do país se deu de forma atabalhoada como bem sabemos ao olhar para todo o processo colonizatório que fundamentou culturalmente o que hoje somos, bem como as sucessivas crises quando já independentes apontando para essa queda que mostrou-se aguda a partir dos anos 90 para cá e a redenção esperada com alguém inadvertidamente chegando e transformando todo o nosso estado de coisas, obviamente esse alguém foi Bolsonaro. Tal vislumbre redentivo, mostra-se problemático sob muitos ângulos, mas o mais certeiro e latente está no fato de colocarem expectativas e fé salvadora em um homem cheio de falhas e sem nenhuma qualidade visível. A política, pode trazer muitas vezes consigo uma forte carga de cinismo, ao percebermos sabiamente que ela faz o possível que está a uma distância muito acentuada do ideal; o povo entidade abstrata e problemática, no entanto, não compreendeu assim e depositou confiança inabalável em um homem facilmente abalável.
Ao longo do tempo, como já disse em outras ocasiões, a torcida espontânea e engajada virou culto sectário e violento(discurso) dessa forma o que poderia ser em algum ponto algo bom, mesmo que eu particularmente nunca tenho percebido assim, virou apenas uma torcida lulopetista de sinal contrário. Portanto, aquelas disputas como cruzeiro versus atlético ou católicos versus evangélicos, ganharam mais uma disputa notável lulistas versus bolsonaristas todas essas torcidas não se valem de grande aporte intelectual e muitas vezes foge da racionalidade e se desenvolve no campo das paixões. Esse é o ponto em que nos encontramos, quando olhamos para os apoiadores persistentes dessa seita, visto que, graças aos mecanismo de fidelização promovidos pelos microfones de aluguel e pelas redes de mensagens nas redes sociais Bolsonaro segue cristalizado no imaginário dessa gente como aquele que tentou salvar e não conseguiu.
Parcela da população, então, hoje segue sendo imebecilizada e enganada; mas não podemos nos iludir são fruto de todo esse autoengano metafísico que levou o país a criar uma nova religião caracterizada pelo uso das cores do Brasil, palavras de ordem e culto ao líder. Não há redenção na política, como eu disse no começo esse fenômeno está nas últimas, entretanto, algo similar pode ressurgir se essa concepção atabalhoada persistir. Saibamos que podem haver boas aventuras e mecanismos terapêuticos para qualquer sociedade em que ela se estabelece, compreendamos isso e sairemos do lamaçal vigente.

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